Memórias de uma bactéria sem pai nem mãe.

Eu comecei minha vida – chamemos assim – como bactéria. Sim, uma daquelas primitivas do ano de 2010. Eu já tinha sido um vírus, o PHI X 174, e acabei patenteado como uma espécie de “microfrankenstein” para os grandes lucros da Synthetic Genome Inc.

Mas, historicamente, tudo isso foi muito depois.

Antes de eu nascer, no inicio do século 21, os cientistas apenas faziam um troca-troca de células entre espécies diferentes, coisa impensável durante três bilhões de anos, pois os seres vivos se encasulavam dentro de células impenetráveis. Isso provocou um carnaval de mutações:  genes de águas-vivas misturados com ratinhos brancos, cachorros iluminados como néon verde, minhocas coloridas com asas de borboletas, pequenos elefantinhos cruzados com pôneis (para alegria da criançada), enfim, surgimento de seres até então considerados monstros.

O estranho de tudo isso era a coexistência dos gastos de bilhões de dólares nos laboratórios com a fome da África, com a boçalidade política destruindo o mundo,  com a tecnociência fazendo milagres cercada de lixo, miséria e estupidez.

Nessa época, já se armavam nos desertos os confrontos nucleares no Oriente Médio que, poucos anos depois, como previsto, explodiram: Paquistão contra Índia, Israel contra o Irã, antrax na Broadway, arrasamento de Meca e Teerã.

E foi justamente durante essas catástrofes que descobriram o DNA sintético e começaram as mutações do nada em algo, a partir daquele meu remoto ancestral bacteriano de 2010, lembra? Era minha longínqua avó, a “mycoplasma genitalium”, que habitava as paredes das vaginas. Isso fez a mídia esquecer toda a lixeira nuclear instalada, mares negros de petroleo, geleiras derretidas. O mundo se rejubilou: “Vida artificial! Somos deuses”.

Grandes merdas, digo eu: hoje, é tão obvia a máquina da natureza…

Filósofos que meditavam sobre o ser mergulharam em depressões incuráveis, internados nos hospícios da academia, assistindo em desespero invejoso aos cientistas ganhando prêmios Nobel, tudo a partir daquele bichinho de onde eu vim.

As mutações passaram a surgir em cascata.  Das bactérias, os pesquisadores pularam para as algas, para os fungos, porque eles têm núcleo e cromossomos como animais, plantas e nós, os supostos homo sapiens. A partir daí, nasceram estirpes de seres alienígenas daqui mesmo da terrinha: era a criação sem deus, a criação ateia, a origem das espécies vindas do computador.

Apareceram os filhos do nada.  E logo o mercado os cooptou. As elites se regalaram com escravos artificiais, como os Elois, artesãos incansáveis, vivendo sem comer, ou os Morlocks, operários cegos, trabalhando em subterrâneos e minas, ou os Golens, excelentes mordomos discretos. Também foi muito emocionante a renascença dos hominídeos Neandertal, que voltaram à vida, recriados a partir de um pedaço de unha fóssil.

As maravilhas da ciência eram inócuas, dentro de uma sociedade fracassada. Nada de bom podia sair de raízes podres. Como não havia outra saída, a indústria do entretenimento (melhor dizendo, do esquecimento…) passou a produzir vida artificial para jogos e brinquedos. A humanidade virou um parque temático  de monstros inúteis.

Alguns cientistas ainda achavam que a razão antiga poderia ser salva pela tecnociencia. Mas, a razão nunca tinha havido, a não ser como um luxo francês e alemão no século 18.  A insânia do mundo sempre fora invencível. Desesperados, eles entenderam que, no caos humano de 13 bilhões de desgraçados, o passado já tinha acabado e o futuro não chegaria nunca.

Foi nessa época que acabou o presente. Não havia mais presente – só um caldo borbulhante de nada. Só restava aos cientistas o acaso, quase a poesia. Continuaram a parir filhos dos algoritmos. Nasciam seres abstratos sem pai nem mãe, seres com algo de anjos, metáforas vivas, fadas quase invisíveis, sentidas apenas por gemidos melódicos.

Surgiram formas líquidas como medusas, entidades compostas de calor como se viessem do início dos tempos, corações soltos no ar, sombras sem corpos.

Os sábios entenderam, então, que tinham criado não a vida, mas o nada. A ciência era inútil.  Tinha morrido a falta, tinha morrido a morte, tinha morrido o vazio, o mistério – portanto, o desejo e a memória.

Entre o ser e o nada, criáramos o nada, sob a luz impassível das galáxias sem rumo ou  finalidade.

Texto retirado do jornal O TEMPO.

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Published in: on 03/07/2010 at 9:59  Deixe um comentário  

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