Mergulhando com o Grande Tubarão-Branco.

Por Marcelo Szpilman

Great White Shark Expedition começa em San Diego, cidade localizada na costa oeste dos Estados Unidos, próximo à fronteira com o México. Éramos 20 mergulhadores, 15 brasileiros e 5 americanos. No grupo, estavam GabrielGanme, especialista em mergulho com tubarões, Marcelo Krause, um dos melhores fotógrafos submarinos do país, que gentilmente cedeu as fotos para a matéria sobre essa expedição, publicada no último informativo do InstitutoAqualung, e Lawrence Wabba, famoso cinegrafista da vida selvagem. De San Diego, descemos de ônibus até Ensenada, no México, de onde sai o barco da operação de mergulho em direção à ilha de Guadalupe __ ilha vulcânica distante 241 km da costa do México (quase 24 horas de navegação).

Existem três pontos no mundo onde pode-se mergulhar com os grandes tubarões-brancos, com bom grau de certeza de encontrá-los. No sul da Austrália, na África do Sul (Cidade do Cabo) e na ilha de Guadalupe, no Pacífico. O que os três pontos têm em comum? Águas frias e grandes colônias de pinípedes __ superfamília dos mamíferos marinhos que abrange as focas, leões-marinhos, lobos-marinhos, elefantes-marinhos e morsas. Ou seja, uma farta e gordurosa dispensa para os tubarões-brancos.

A ilha de Guadalupe, considerada, por suas águas claras e população de tubarões com comportamento mais calmo, o melhor dos três pontos citados para observação dos grandes brancos, serve de berçário para três populações específicas de pinípedes: o lobo-marinho-de-Guadalupe (Arctocephalus townstendi), o elefante-marinho-boreal (Miroungaangustrirostris) e o leão-marinho-da-Califórnia (Zalophus californianus). Cada população ocupa um espaço definido na ilha e não se mistura.

Ancoramos na ilha de Guadalupe às 7 horas da manhã e pouco depois já estávamos no briefing de mergulho para receber as orientações operacionais e de segurança. Enquanto isso, as gaiolas foram colocadas na água, duas na popa e uma ao lado da embarcação. Os vinte mergulhadores foram divididos em dois grupos de rodízio e cada grupo distribuído nas três gaiolas (duas com três e uma com quatro mergulhadores). Eu estava no primeiro grupo e logo após o briefing nos equipamos e fomos para as gaiolas.

Passada quase meia hora, surgiu o primeiro tubarão-branco. Uma grande fêmea, ainda tímida. Demorou para se aproximar, mas acabou passando em frente às gaiolas para alegria de todos. O segundo e o terceiro mergulhos foram ainda melhores, com dois tubarões desfilando para a plateia extasiada. Já mergulhei com diversas espécies de tubarões e cansei de assistir os documentários com os grandes tubarões brancos, porém vê-los ao vivo e muito próximos, com seu majestoso porte, é impagável. O jeito imponente e calmo com que cruzam as águas azuis ao lado das gaiolas, o que permite ótimas fotos e filmagens, transmite uma clara sensação de que eles têm plena consciência de que são os reis do pedaço.

Ao longo do dia, foram três fêmeas e um macho desfilando seus enormes corpos, de quatro a cinco metros. Foi um belo e produtivo dia. Cansativo e frio, mas extremamente gratificante. No segundo dia foram avistados seis indivíduos diferentes, sendo dois machos e quatro fêmeas. Uma delas com mais de cinco metros. Em alguns momentos, podíamos ver até três animais ao mesmo tempo nas águas à nossa frente. O tubarão-branco é um predador habilidoso e furtivo, que caça com ritual e propósito. Normalmente solitários, podem juntar-se em breves agregações quando há fonte de alimento __ no caso, os atuns jogados na água para atraí-los. Nessas ocasiões, estabelecem uma ordem hierárquica de alimentação na qual o tamanho determina a vez e os maiores comem primeiro.

Nesse dia tivemos a sorte de poder ver e acompanhar ao vivo o procedimento usual do leão-marinho quando está retornando de sua pescaria ao largo da ilha e percebe a presença do tubarão-branco. Ele fica com a cabeça dentro da água observando onde estão os tubarões e, quando um deles se aproxima, o leão-marinho, como se quisesse provocar, fica nadando ao redor do tubarão, a poucos metros de distância. Na verdade, ele está demonstrando ao predador que ele já foi percebido. Assim, o tubarão-branco, que é um especialista no ataque de emboscada e sabe que não consegue pegar a presa sem a surpresa a seu favor, desiste de tentar algo.

É interessante mencionar que quando alguns mergulhadores resolveram sair da gaiola, para ter novos ângulos de filmagem, os tubarões-brancos sumiram. E desapareceram por que passaram a não mais se sentir confortáveis naquela situação. Ou seja, sentiram medo e deixaram a área. E isso acontece, como ocorre nos safaris fotográficos na África, por que o animal vê a gaiola e os mergulhadores como uma coisa só, da qual já está acostumado e que não lhe representa ameaça. Mas basta que um mergulhador saia e se destaque para que o grande branco sinta-se intimidado. Mais um fato que desmitifica a imagem do tubarão-branco como a fera assassina dos mares.

No terceiro dia tivemos vários indivíduos alternando suas aproximações das gaiolas, atraídos pelos atuns. No entanto, o ponto alto aconteceu por volta do meio-dia, quando três machos disputavam a área. Dois deles tiveram o típico comportamento (display) de nadar em paralelo na mesma direção, mantendo uma distância segura e medindo-se mutuamente __ ao avaliarem-se, comparando seus tamanhos, rapidamente decidem quem é o maior e quem, por isso, tem a dominância. Evitam, assim, uma confrontação que envolveria riscos mútuos de lesões que poderiam reduzir sua capacidade futura para caçar as ágeis presas que compõem sua dieta básica.

Era comum os tubarões darem uma passada pelas gaiolas e sumirem no azul, mas no quarto e último dia um dos machos, com cerca de quatro metros e meio, decidiu dar um show a parte e ficou desfilando seu corpanzil por pelo menos três longos minutos em frente às duas gaiolas da popa. Eu, que estava em uma delas com uma máquina digital da FUN DIVE, fiz um filme com 2’45’’ sem cortes. O animal parecia que estava gostando de ser filmado. Passava de um lado para o outro e, quando se virava, aproximava-se muito das gaiolas. E a cada passada, eu, com parte do corpo para fora da gaiola, teimava em aproximar ao máximo a câmera do majestoso animal. No final do desfile, ele partiu para cima de um atum amarrado como isca, que ao ser puxado pelo pessoal na embarcação, o pôs em rota de colisão com a gaiola onde eu estava. Filmava tudo, meio hipnotizado, quando vi o tubarão crescer na telinha de LCD da máquina. Só tive tempo de voltar para dentro da gaiola e ver o tubarão desviando de mim e batendo sua nadadeira caudal na parte superior da gaiola. Com a adrenalina pulsando, ouvi então, dentro d’água, alguns Uuuuuuuh Ohhhhhh! E não é mentira de mergulhador não, foi tudo gravado pelo amigo Axel Blikstad.

Ao final do dia, a âncora e as gaiolas foram recolhidas e partimos de volta à Ensenada com gostinho de quero mais. Como o mergulho com os tubarões-tigres na África do Sul, o mergulho com os grandes brancos na costa do México é uma daquelas coisas que se deve fazer pelo menos uma vez na vida. E eu fiz.

Para ler a matéria Mergulhando com o Grande Tubarão-branco, completa no último informativo do Instituto Aqualung, acesse esse link.

Indicação para quem quiser mergulhar com os tubarões: Diving College (11) 3863-2142

Proteger os tubarões é proteger a vida, é proteger a nós mesmos!

 

Instituto Ecológico Aqualung

Site: http://www.institutoaqualung.com.br

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Published in: on 08/12/2010 at 9:54  Deixe um comentário  

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