Alerta de Tubarão em Cabo Frio – Necessário ou Excesso de Zelo?

Por Marcelo Szpilman

As notícias “Bombeiros fazem Alerta de Tubarão em Cabo Frio”, veiculada ontem na mídia online, e “Tubarão deixa Cabo Frio em Estado de Alerta”, veiculada hoje em alguns jornais, precisam ser esclarecidas para evitar exageros e distorções que podem gerar insegurança e medo desnecessários para a população.

Em princípio, o alerta de tubarão em Cabo Frio soa como absolutamente inócuo ou desnecessário, já que os tubarões habitam aquela região há milhões de anos e NUNCA representaram qualquer ameaça ao homem __ não há nenhum registro de ataque de tubarão a banhistas, surfistas ou mergulhadores em Cabo Frio ou Arraial do Cabo. O problema, e esse é o motivo do esclarecimento, são as declarações e opiniões acessórias que mais confundem do que ajudam.

Com o objetivo de esclarecer alguns pontos, seguem abaixo algumas dessas declarações e opiniões e as respectivas análises.

1 –Bombeiros de Cabo Frio emitiram um alerta sobre a presença de um cação perseguindo um cardume de peixes”.

A presença de tubarões em nosso litoral sempre foi e continua sendo um fato muito comum (tomara que continue assim). Os tubarões frequentam há milhões de anos as mesmas áreas onde o homem passou a ter seu lazer e práticas esportivas. A zona de arrebentação das ondas é um excelente local para os tubarões capturarem seus peixes. Como já ocorreu nas praias do Rio de Janeiro, avistar cações (ou tubarões) em suas atividades rotineiras de obtenção de alimento em um dia de águas claras, ainda que seja uma curiosidade, não é nenhuma novidade e não representa nenhum tipo de ameaça. Assim, emitir alerta para esse tipo de evento só contribui para gerar intranquilidade.

2 –Os tubarões em geral podem confundir os surfistas com tartarugas e atacá-los”.

Ainda que a confusão visual possa motivar um ataque, essa possibilidade não se aplica à Cabo Frio. Explico. Cerca de 90% dos ataques de tubarão ao homem, no mundo todo, são provocados pelo erro de identificação visual, quando o tubarão dá uma única mordida investigatória e solta sua vítima após constatar não tratar-se de sua presa habitual. Isso ocorre, por exemplo, na Austrália e no Pacífico com o tubarão-branco, que pode confundir o homem com mamíferos marinhos, nas águas turvas de Recife com o cabeça-chata, que pode confundir pernas e braços de surfistas com peixes, e no Hawaii com o tubarão-tigre, que pode confundir surfistas e suas pranchas com tartarugas.

Em algumas praias do Hawaii, em um evento que ocorre há milhares de anos, quando as tartarugas-marinhas chegam às partes rasas, para depois sair da água para desovar na areia, os tubarões-tigres aproveitam esse momento para atacá-las. Nadam por baixo e atacam de surpresa a região inferior (mais vulnerável) do casco ou suas pernas. Assim, visto de baixo contra a luz do sol, um surfista deitado em sua prancha com os membros dentro d’água, nessas praias do Hawaii, pode, eventualmente, ser confundido com uma tartaruga-marinha. Assim, transpor um evento único no mundo para Cabo Frio é um erro que só contribui para gerar mais intranquilidade.

3 –Os ataques de tubarão a seres humanos sempre têm a ver com a falta de alimentos no mar”.

Essa é uma declaração absolutamente equivocada. Os tubarões são seres bastante adaptáveis e móveis para não sofrer diretamente a influência local da poluição ou falta de alimento. Se uma região não está atendendo suas demandas por presas habituais, o tubarão muda-se para outra região. O caso de Pernambuco é um bom exemplo. A escassez de alimento na região de Suape, devido ao aterro do mangue para construção do Porto, não motivou ataques naquela região, mas sim o deslocamento de uma população de cabeças-chatas para Recife e o aumento considerável na interação dos surfistas e banhistas com os tubarões, que passaram a caçar seus peixes na mesma área. E foi essa nova interação que motivou a sequência de ataques na década de 1990, em sua maioria provocados pelo erro de identificação visual do tubarão. Ou seja, não há relação direta entre falta de alimento e ataque de tubarão. Imaginar que, na falta de peixes e outras presas, os tubarões mudarão seus hábitos alimentares de milhões de anos de adaptação e passarão a atacar seres humanos não condiz com a realidade.

Projeto Tubarões no Brasil (PROTUBA) – Instituto Ecológico Aqualung

E-mail:  instaqua@uol.com.br
Site: http://www.institutoaqualung.com.br

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Published in: on 13/01/2011 at 21:03  Deixe um comentário  

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