Quando é justo sacrificar um animal?

JULIANA CUNHA

No dicionário dos homens, eutanásia é aquele ato generoso de proporcionar morte sem dor para quem sofre de uma doença incurável. No mundo animal, a palavra ganha sentido mais elástico: é estendida para casos em que o dono do bicho doente não pode pagar o tratamento.

Esse é o ponto mais polêmico entre as novas regras definidas pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária. A entidade revisou sua normatização sobre eutanásia e emitiu uma nova resolução, que vem sendo criticada por entidades de proteção.

O documento inclui novos métodos para o sacrifício e retira da lista procedimentos de risco como o choque elétrico sem anestesia prévia.

Até aí, tudo bem. O problema é que o veterinário fica autorizado a matar animais produtivos doentes e cujo tratamento represente custos incompatíveis com a atividade ou com os recursos do proprietário. Trocando em miúdos: donos de animais de fazenda enfermos podem optar pela morte mesmo que ela possa ser evitada com cuidado médico.

“A nova regra veio para regularizar a situação de trabalhadores rurais que não podem gastar o valor de cinco vacas para tratar um único animal com a perna quebrada, visto que não possuem recursos”, diz Marcelo Weinstein Teixeira, da Comissão de Ética, Bioética e Bem-Estar Animal do Conselho.

Para a empresária e protetora de gatos Eunice Lima, 42, a nova regra é desumana. “O fazendeiro tem que colocar em sua planilha de custos que os bichos também adoecem e precisam de tratamento. Não existe isso de matar só porque é caro cuidar”, diz.

“O conselho não atentou para o fato de que a eutanásia deve ser praticada em benefício do animal, não de seu proprietário”, diz Vanice Orlandi, presidente da Uipa (União Internacional Protetora dos Animais). Segundo ela, que é advogada, o texto da nova resolução não condiz com a legislação que protege os animais, abrindo brecha para o sacrifício de “pets” por motivo financeiro.

“A resolução autoriza o sacrifício quando o tratamento tiver custos incompatíveis com a atividade que o animal desempenha ou com os recursos do dono. Cães e gatos não estão excluídos, uma vez que a resolução dispõe sobre a eutanásia de animais, sem fazer distinção entre os que são destinados ao abate e à companhia doméstica”, afima.

Segundo a entidade dos veterinários, quem tem bichos de estimação não pode recorrer à eutanásia só porque o tratamento é caro. “Quem não pode pagar deve buscar os hospitais universitários, os poucos hospitais veterinários públicos ou as ONGs”, diz Benedito Fortes de Arruda, presidente do Conselho Federal de Medicina Veterinária.

SARNA E CONJUNTIVITE

Mas Orlandi, da Uipa, critica ainda a autorização para sacrificar animais que constituírem ameaça à saúde pública. “Sarna pode ser considerada ameaça, até conjuntivite é ameaça”, afirma. Na visão dela, o texto deveria deixar claro que a eutanásia só é aceitável quando o bicho tem doença incurável.

“A nova resolução é um consenso entre os veterinários. Ninguém está falando em matar animais saudáveis, a regra vale apenas para os doentes que representam alto custo. Tratar uma vaca não é como cuidar de um gato dentro de casa”, diz Fortes.

Para Rosângela Ribeiro, veterinária e gerente de programas da WSPA (World Society for the Protection of Animals), outra falha da resolução é autorizar que pessoas sem diploma pratiquem eutanásia desde que assistidas por profissional da área.

“Esse é um procedimento delicado que pode gerar dor.”

Teixeira rebate explicando o propósito da nova regra: “Em casos de epidemia, quando é necessário sacrificar um rebanho inteiro, o veterinário pode receber ajuda de pessoas treinadas desde que ele se responsabilize”.

No ano que vem, o Conselho Federal de Medicina Veterinária deve publicar um guia de métodos e boas práticas feito com o Ministério da Ciência e Tecnologia para orientar os profissionais sobre as técnicas de eutanásia. Segundo Teixeira, o método mais seguro, hoje, é a injeção de um anestésico potente.

É justamente com injeção letal que é feita a eutanásia no Centro de Controle de Zoonoses de São Paulo. O órgão informa que sacrificou 912 cães e 103 gatos no primeiro semestre. “São animais removidos da rua, que já chegam ao centro sem condições de serem tratados”, afirma Telma Rocha, subgerente de Vigilância e Controle de Animais Domésticos do órgão.

DECISÃO TRAUMÁTICA

Sacrificar animal doméstico é uma decisão traumática. Muita gente desiste de ter bichos depois da experiência.

Em fevereiro de 2008, o gato Calvin, de seis anos, estava com 70% de sua função renal comprometida. Fazia xixi pela casa e emagrecia a olhos vistos, quando a dona, a advogada Camila Sesana, 38, decidiu sacrificá-lo.

“Nunca vou esquecer o suspirinho que ele deu quando o anestésico entrou. Foi um dos dias mais pesados da minha vida”, diz. “Mesmo sem hipótese de melhora, foi atordoante me ver na posição de definir o fim da vida dele.”

Aos dez anos, a cocker spaniel Bruna ficou cega. Este ano, aos 15, foi operada de uma inflamação no útero. “Dois meses após a cirurgia ela enfraqueceu e não levantava para nada”, conta a engenheira ambiental Paula Ferreira, 24.

Um dia, Bruna desmaiou no banho e foi levada ao veterinário: a inflamação no útero se espalhou. Nova operação foi desaconselhada por conta da idade da cadela.

“Conversamos na família e decidimos que o melhor era deixá-la descansar”, diz Paula. Hoje, seus pais discutem se terão ou não outro bicho.

Aos 15 anos, a engenheria civil Ana Carolina Paulino, 30, ganhou um bichinho de 1,90 m, o cavalo Dakar, criado na chácara onde ela morava, no Tocantins.

Aos 17 anos, Ana levou Dakar para uma cavalgada. Caíram num buraco tampado pelo mato e Dakar feriu uma vértebra lombar. O cavalo chegou a andar até o caminhão que iria levá-lo de volta à chácara e foi examinado por um veterinário. Ao chegar, tropeçou na saída, na rampa do caminhão. A vértebra que estava fissurada se quebrou.

“Não foi possível fazer nada. Aplicamos anti-inflamatórios e analgésicos, mas a dor dele era visível”, diz Ana Paula. Os pais e o veterinário decidiram sacrificar o bicho. Já ela não aceitava a ideia.

“Eles marcaram a data, mas, no dia, não deixei. Fizeram a eutanásia quando eu saí para prestar vestibular.” Ana se mudou para cursar a faculdade e conta que nunca mais conseguiu voltar à chácara ou andar a cavalo.

Por ano, 4 milhões de cães e gatos sofrem eutanásia nos EUA!

40% das casas americanas têm pelo menos 1 cão de estimação!

FONTES: ASPCA (SOCIEDADE AMERICANA DE PREVENÇÃO À CRUELDADE CONTRA ANIMAIS); APPA (ASSOCIAÇÃO AMERICANA DA INDÚSTRIA DE PRODUTOS PARA ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO)

912 cães e 103 gatos foram sacrificados no Centro de Controle de Zoonoses da cidade de São Paulo durante o primeiro semestre de 2012!

FONTE: TELMA ROCHA, SUBGERENTE DE VIGILÂNCIA E CONTROLE DE ANIMAIS DOMÉSTICOS DO CENTRO DE CONTROLE DE ZOONOSES DE SÃO PAULO.

Nos EUA, há 84,7 milhões de gatos e 78,2 milhões de cães!

O custo médio para criar um pet nos EUA é U$ 700 por ano (R$ 1.424)!

Fontes: ASPCA (sociedade americana de prevenção à crueldade contra animais); APPA (associação americana da indústria de produtos para animais de estimação).

Texto retirado do site Folha de São Paulo.

OBS: Pai Dirceu Rabelo, muito obrigada pela matéria fenomenal. Triste, porque a regulamentação tem certos buracos que podem ser utilizados para a eutanásia indiscriminada, porém, explicativa e muito interessante. Obrigada!

E vocês, Leitores, o que acharam? Opinem!

Marilia Escobar

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Published in: on 16/10/2012 at 22:45  Comments (6)  

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6 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Já passei por isso. É uma dor absurda. Só o tempo para curar a dor.
    Meu gatinho foi atropelado e sacrificar foi a única opção. Não queria, mas ao mesmo tempo não queria vê-lo sofrendo. O veterinário disse que talvez ficasse dias agonizando. Foi muito triste, muito mesmo. O mais terrível é ver o bichinho morrendo e não poder fazer nada.
    Li essa matéria chorando.
    Sinto muita saudade do meu Branquelinho.

    • Tallita,

      Também precisei sacrificar um animalzinho e sofri mto! Morro de saudades até hoje. O que deve confortar nossos corações é que hoje são estrelinhas e ficam cuidando de nós lá do céu.

      Abraços,

      Marilia Escobar

      • Prezada Marília, Adoro seu blog, que acompanho há algum tempo e onde muito aprendo. Vou dar meu pitaco nessa questão. Primeiramente, indo além do ponto em si.
        Nós, seres ‘humanos’ (‘sapiens’) não conseguimos conviver sequer entre nós. Desnecessários maiores exemplos; bastando pensar em trânsito, relações de vizinhança, etc.

        A nossa relação com os animais também é reflexo do que somos, ou do ponto de evolução em que estamos.

        Embora minha formação não seja em biologia ou veterinária (trab. com direito ambiental, e adoro a ‘interface’ transdisciplinar que os estudos ambientais proporcionam) sei que no Brasil, em BH é dos poucos países/cidade onde ainda se sacrificam animais por leishmaniose por exemplo. Na Europa, segundo informações que tive essa prática deixou há muito de ser adotada pela singela razão de que o sacrifício individual daquele animal não controlará a epidemia (o que me parece lógico, pois o mosquito, ou o vetor transmissor da doença que for não vai distinguir (‘opa, este é um ser humano, este é um ser x, não vou picá-lo’).

        Vejo as pessoas nas ruas tendo animais domésticos, cães meio por ‘moda’, como quem escolhe uma roupa; do mesmo modo que vejo as pessoas acharem lindo passearem com eles sem coleira (se até uma criança salta na frente atrás de uma bola perdida, que dirá um cão?), ou fazerem seu cooper ou caminhada matinal com animais de pequeno porte que obviamente ficam sobrecarregados pelo exercício (o passeio de um galgo ou de um pastor alemão é obviamente diferenciado de um york ou um poodle toy). O que noto é que não há inteiração- comunicação- entre a pessoa e o seu animal, são ‘donos’ despreparados para tal.

        Na Alemanha, a reforma do Código Civil coincidiu mais ou menos com o nosso Novo Código (2002). Com uma diferença nesse ponto: aqui, juridicamente os animais (ainda) são considerados ‘coisas’ (semoventes na linguagem do civil) e lá os animais passaram à categoria de seres vivos. Isso mostra bem o tom de evolução de uma e outra sociedade.

        Quanto ao ponto em si, acho que o sacrifício deve ser pro-animal, ou seja, estritamente (excepcionalidade) nos casos em que a sobrevida dele só iria gerar um final de imenso sofrimento ao animal (e não sofrimento para a carteira do ‘dono’, que não raro prefere não ter de adiar a viagem de fim de ano e se ver livre do ‘incômodo’). Enfim, temos muito que evoluir, como sociedade e individualmente como seres.

      • João,

        Comentário pertinente e muito interessante. Obrigada pelos elogios e participe sempre. É importante que os leitores critiquem, opinem e participem da formação do blog junto comigo.

        Obrigada pela opinião e quem sabe um dia conseguimos mudar TODO o mundo????

        Marilia Escobar

  2. Oi, amiga! Tive uma experiência há pouco que se relaciona ao tema tratado.
    Minha cadelinha, uma vira- latina chamada Loly adoeceu. Levando ao veterinário descobrimos um problema no útero relativamente comum chamado piometra. A indicação pra ela foi a cirurgia de retirada do útero. Muita gente me criticou por querer tratá- la, por se tratar de um custo maior pra ima cadela que já tem 13 anis e nem tem mais muito tempo de vida. Mas eu seria incapaz de matar uma companheira que há 13 anos faz parte da minha vida só por achar o tratamento caro.
    Ela foi operada tem mais ou menos 15 dias e está ÓTIMA!
    Espero, que como todos que pensam como nós essa realidade mude, mas isso só acontecerá qdo as pessoas deixarem o egoísmo de lado.
    Enquanto isso a gente faz a nossa parte e dorme com a consciência em paz!
    Parabéns pelo blog e pela matéria!
    Love you!
    Paty.

    • Oi, Flor da minha vida!

      Fiquei tão feliz com seu comentário aqui no blog… bom saber que os irmãos de coração também gostam do que publico.

      Eu sei bem o que vc sentiu… a sensação de dever cumprido, de ter feito o que podia por um ser. A Palominha passou recentemente pelas mesmas coisas, pagamos pela cirurgia e com a graça de meu São Francisco de Assis, ela está muitíssimo bem.

      Nada melhor do que saber que fizemos tudo pelos que amamos!!!!

      Obrigada pela contribuição!

      Também amo vc!

      Marilia Escobar


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